Sonho muito com água. Ondas crespas. Rios barrentos. Pedras molhadas. Peixes. Seres marinhos. Profundidades abissais. Acho que tudo tem a ver com o fato de ter passado boa parte da infância tomando banho em igarapés, quando passava temporadas no interior do Pará. Banhos mágicos de rio ànoite e dezenas de crianças com a pele brilhando em meio a mulheres lavando roupa e inofensivas cobras d’águas. Lembranças de fase da vida que só volta agora em sonhos. De qualquer forma, esse mundo líquido e silencioso é reino das mães d ‘água que me criaram e ainda é e sempre será uma grande parte da realidade que vivo. Afinal somos movimento e impermanência, como a água, em curso desgovernado, sob os olhos de Iemanjá, que protege ou vira as costas para seus filhos, conforme seu merecimento. E, assim, vamos sendo jogados para novas margens…

Esse movimento me trouxe uma nova sorte, uma nova vida e novos desafios. Mudei de Estado com meus parceiros de vidas passadas, de vida presente e quiçá de vidas futuras. Após 3 anos morando em São Paulo, finalmente anunciamos as dores de um novo parto. Pois é, temos um disco novo. O segundo que muitos dizem ser o tal decisivo em uma carreira e talvez seja sim para nós, mas não nesse sentido de um trabalho de afirmação artística afinal estamos apenas começando. Decisivo porque vencemos alguns de nossos demônios e toda uma sorte de coisas que nos fizeram olhar pra trás, para frente e principalmente para dentro.Decisivo por nos colocar em nosso devido lugar: juntos e em movimento. Por vezes os olhos não brilharam, por vezes uma saudade canibalizante nos consumiu e entre canções, algum desespero, rugas novas, papéis, olhos marejados, alergias, festas, fúrias, muitas paixões e situações foram vividas e esquecidas. Tudo muda, tudo passa.

Peixe Homem fala sobre nós que mudamos o curso do nosso rio e deixamos para trás, mas jamais de dentro de nós, as águas barrentas da Baia do Guajará. É sobre mudanças externas e internas e sobre qualquer um com suas profundidades abissais dos sonhos e lagoas rasas do marasmo. Não é um disco cinza ou chumbo e tampouco tem as cores de uma saia rodada de chita. É barrento. Feminino. E nele estão nossos medos. E nele está a falta de fé e toda a nossa fé. A raiva. O desencanto. A paixão.É um disco vigoroso,afinal a vida se apresenta assim para nós.Fazemos rock pesado, mas há uma certa brisa porque em nós o metal e algumas texturas sonoras do Norte do Brasil convivem naturalmente.

Esse trabalho não seria possível sem participação direta e indiretamente de dezenas de pessoas e no que se refere a parte técnica, Peixe Homem, não respiraria não fosse Paulo Anhaia, produtor do disco e agora também um amigo. A masterização ficou a cargo de Alan Douches, o selo Doutromundo Discos é o responsável pelo lançamento e a distribuição é com os parceiros do FDE Distro e Tratore.

Águas barrentas ou cristalinas, doces ou salgadas, igarapés como almas geladas, rios sinuosos como mulheres. Estige. Rios vermelhos que nos levam de um lugar a outro, lavam, brincam, matam e nos trazem à vida.

Ainda somos peixes. E, às vezes, homens.

Respirem.

Samm

 

*foto/Renato Reis